FEVEREIRO 2010
ÁGUA, ENTRE A ECONOMIA E A VIDA
A Campanha da Fraternidade desse ano traz a tona um debate central da organização da humanidade. Não há mais como deixar a margem a questão da relação entre a economia e a vida. Mas isso de um modo que tenha a vida como principio de entendimento e não a questão financeira. Cada vez que se fala em economia o que é mostrado são as bolsas de valores, as movimentações do mercado, crescimento financeiro, desenvolvimento tecnológico e todas as suas relações. É um pensamento que tem na economia apenas as coisas como central. A vida não importa. Não importa que a cada ponto pra mais ou pra menos numa bolsa de valores as pessoas ou a natureza está sendo morta.
Seguindo nessa mesma linha, uma questão está no centro das atenções. É a questão da água. Já existe a preocupação da poluição, da falta de água potável, além da falta de acesso a ela por milhões de pessoas em todo o mundo. O debate está agora no que vai se transformar a água, em termos de organização da sociedade, com o aumento da escassez.
BEM OU BENS
O Jornal Missioneiro há algum tempo insiste em mostrar que a vida está se transformando em um produto ou mercadoria. Tem colocado a necessidade de rever a forma de viver onde a economia esteja a serviço da vida e não a vida a serviço da economia. Há uma constatação de que vivemos uma sociedade dos BENS e não do BEM. Gastamos toda nosso energia, nosso tempo, nosso desejo, nossa vontade com as coisas, com os bens.
E a questão da água está nessa mesma situação: ela é um BEM ou um dos bens de mercadoria do sistema econômico? Esse tema é tratado com muita importância pela Campanha da Fraternidade 2010.
O questionamento primeiro é sobre o “valor econômico” da água. “ O raciocínio é simples: tendo que pagar, a utilização da água será mais racional e cuidadosa. Quanto mais pesar economicamente, mais racional será o seu uso. Mas isso não significa que a água possa ser incorporada a categoria de mercadoria, e portanto regida pelas leis de mercado” (TEXTO BASE, 28).
Para a CF 2010 é preciso ter claro que a água não pode ser uma mercadoria. O que é preciso fazer com urgência é uma administração séria, justa e confiável sobre o cuidado e gerenciamento dos recursos hídricos. Por que isso? Vejamos o seguinte caso: “Hoje, uma fábrica de cerveja retira do posso artesiano toda água que necessita, sem pagar nada por ela, e depois descarrega parte dessa água, agora poluída por detergentes e dejetos, no rio mais próximo. O lucro com a venda da cerveja é todo dela; a perda no lençol subterrâneo e a poluição do rio são da comunidade local” (TEXTO BASE, 29).
Esse absurdo se soma a outros, onde a concessão para captação, tratamento e distribuição da água se torna uma mercantilização da água. Confunde-se o princípio “usuário- pagador” que obriga a quem usa pagar, com o princípio de que “quem não paga não usa” e ainda mais grave “quem não puder pagar não pode usar”.
TRANSFORMAÇÃO DA ÁGUA EM MERCADORIA
A água já é uma fonte de economia mais do que de vida. A afirmação de que a água é fonte de vida não perde seu sentido. Mas, ela é primeiramente uma fonte de economia. E essa tendência é agravar-se ainda mais com a situação de descaso da água em todo o planeta. O preço a ser pago por ter feito a água um depósito de lixo será altíssimo.
Como ela está entrando numa categoria econômica, essa conta vai ser paga da mesma forma e pelos mesmos como das outras questões que são de bem público que são privatizados.
“O problema mais grave do atual debate sobre a água é a transformação desta em mercadoria. É nesse sentido que se fala em “petrolização” da água, ou em “ouro azul”, passando a ser objeto de interesse da Organização Mundial do Comércio, embora as resistências surjam de todos os lados. A classificação da água como mercadoria representaria o triunfo da lógica de mercado, e a transformação da água em objeto de lucro das grandes empresas capitalistas” (TEXTO BASE, 34).
O compromisso com o cuidado da água é de todos. Não é só das grandes empresas. Nem de políticos. Basta olhar o que fazemos com a água, quanto gastamos, como a preservamos. Criou-se uma cultura em que o rio é o melhor transporte de lixo, como a melhor empresa e com menor custo. O preço disso já esta sendo pago e vai aumenta muito.
ELABORAÇÃO: EQUIPE DO JORNAL MISSIONEIRO
O SOM DO SILÊNCIO
LETRA DA MÚSICA DE SIMON & GARFUNKEL
Olá escuridão, minha velha amiga
eu vim conversar com voce novamente
por causa de uma visao que se aproxima suavemente
Deixou suas sementes enquanto eu estava dormindo
E a visao que foi plantada em minha mente
Ainda permanece entre o som do silêncio
Em sonhos agitados eu caminhei só
Em ruas estreitas de paralelepípedos
Sob a áurea de uma lamparina da rua
Virei minha gola para frio e umidade
Quando meis olhos foram ofuscados pelo flash,
de uma luz de néon
Que rachou a noite
E tocou o som do silêncio
E na luz nua eu enxerguei
Dez mil pessoas talvez mais
Pessoas conversando sem estar falando
Pessoas ouvindo sem estar escutando
Pessoas escrevendo canções, que vozes
jamais compartilham
Ninguém ousou
Perturbar o som do silêncio
E na luz nua eu enxerguei
Dez mil pessoas talvez mais
Pessoas conversando sem estar falando
Pessoas ouvindo sem estar escutando
Pessoas escrevendo canções, que vozes
jamais compartilham
Ninguém ousou
Perturbar o som do silêncio
"Tolos", digo eu, vocês não sabem
O silêncio como um câncer cresce
Ouçam as palavras que eu posso lhes ensinar
Tomem meus braços que eu posso lhe estender
Mas minhas palavras
Como silenciosas gotas de chuva caíram e ecoaram
no poço do Silêncio
E as pessoas se curvaram e rezaram
Para o Deus de néon que elas criaram
E um sinal faiscou o seu aviso
Nas palavras que estavam se formando
E o sinal disse, "As palavras dos profetas
estão escritas nas paredes do metrô, e nos
corredores dos conjuntos habitacionais"
E sussurraram o som do silêncio
BAIXE A MELODIA
http://www.4shared.com/file/34945730/e009e3f9/05_SOM_DO_SILENCIO.html?s=1
FRASES DE QUEM SABE!
“Não basta ensinar ao homem uma especialidade, porque se tornará assim uma máquina utilizável e não uma personalidade. É necessário que adquira um sentimento, um senso prático daquilo que vale a pena ser empreendido, daquilo que é belo, do que é moralmente correto”. Albert Einstein
“Temer o amor é temer a vida, e os que temem a vida já estão meio mortos” Bertrand Russel
“Um pai, por mais pobre que seja, tem sempre uma riqueza para deixar a seu filho: o exemplo.” Coelho Neto
“A mais alta das torres começo no solo” Provérbio Chinês
“Copiar o bom é melhor que inventar o ruim” Armando Nogueira
“A vida é igual andar de bicicleta: você não cai enquanto não pára de pedalar” Claude Papper
“Nada é mais assustador do que a ignorância em ação” Goethe
“Não permita que nenhum homem o faça descer tão baixo a ponto de sentir ódio” Martin Luther King
“O impossível não existe para um coração decidido” John Heywood
“Todas as flores do futuro estão nas sementes de hoje” Provérbio Chinês
ÚLTIMO DISCURSO DE ZILDA ARNS
“ELA (DRª ZILDA) FOI A MATERNIDADE DE DEUS, UM DOM DE DEUS DADO À IGREJA E AO BRASIL” DOM LEONARDO ULRICH – Bispo de São Félix Do Araguaia
Esse texto é uma parte do último discurso de Zilda Arns, feito para o Haiti. É um verdadeiro extrato de sabedoria.
Hoje vou compartilhar com vocês uma verdadeira história de amor e inspiração divina, um sonho que se fez realidade. Como ocorreu com os discípulos de Emaús (Lc 24, 13-35), "Jesus caminhava todo o tempo com eles. Ele foi reconhecido a partir do pão, símbolo da vida." Em outra passagem, quando o barco no Mar da Galileia estava prestes a afundar sob violentas ondas, ali estava Jesus com eles, para acalmar a tormenta. (Mc 4, 35-41).
Com alegria vou contar o que "eu vi e o que tenho testemunhado" a mais de 26 anos desde a fundação da Pastoral da Criança, em setembro de 1983. Aquilo que era uma semente, que começou na cidade de Florestópolis, Estado do Paraná, no Brasil, se converteu no Organismo de Ação Social da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, presente em 42 mil comunidades pobres e nas 7.000 paróquias de todas as Dioceses da Brasil.
Por força da solidariedade fraterna, uma rede de 260 mil voluntários, dos quais 141 mil são líderes que vivem em comunidades pobres, 92% são mulheres, e participam permanentemente da construção de um mundo melhor, mais justo e mais fraterno, em serviço da vida e da esperança. Cada voluntário dedica em média 24 horas ao mês a esta missão transformadora de educar as mães e famílias pobres, compartilhar o pão da fraternidade e gerar conhecimentos para a transformação social.
O objetivo da Pastoral da Criança é reduzir as causas da desnutrição e a mortalidade infantil, promover o desenvolvimento integral das crianças, desde sua concepção até o seis anos de idade. A primeira infância é uma etapa decisiva para a saúde, a educação, a consolidação dos valores culturais, o cultivo da fé e da cidadania com profundas repercussões por toda a vida.
Em maio de 1982, ao voltar de uma reunião da Organização das Nações Unidas (ONU), em Genebra, D. Paulo me chamou pelo telefone a noite. Naquela reunião, James Grant, então diretor executivo da Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância), falou com insistência sobre o soro oral. Considerado como o maior avanço da medicina no século passado, esse soro era capaz de salvar da morte milhões de crianças que poderiam morrer por desidratação devido a diarreia, uma das principais causas da mortalidade infantil no Brasil e no mundo. James Grant conseguiu convencer a D. Paulo para que motivasse a Igreja Católica a ensinar as mães a preparar e administrar o soro oral. Isto podia salvar milhares de vidas.
Viúva fazia cinco anos, eu estava, naquela noite história, reunida com os cinco filhos, entre os nove e dezenove anos, quando recebi a chamada telefônica do meu irmão D. Paulo. Ele me contou o que havia passado e me pediu para refletir sobre ele. Como tornar realidade a proposta da Igreja de ajudar a reduzir a morte das crianças? Eu me senti feliz diante deste novo desafio. Era o que mais desejava: educar as mães e famílias para que soubessem cuidar melhor de seus filhos!
Creio que Deus, de certo modo, havia me preparado para esta missão. Baseada na minha experiência como médica pediatra e especialista em saúde pública e nos muitos anos de direção dos serviços públicos de saúde materna-infantil, compreendi que, além de melhorar a qualidade dos serviços públicos e facilitar às mães e crianças o acesso a eles, o que mais falta fazia às mães pobres era o conhecimento e a solidariedade fraterna, para que pudessem colocar em prática algumas medidas básicas simples e capazes de salvar seus filhos da desnutrição e da morte, como por exemplo a educação alimentar e nutricional para as grávidas e seus filhos, a amamentação materna, as vacinas, o soro caseiro, o controle nutricional, além dos conhecimentos sobre sinais e sintomas de algumas doenças respiratórias e como as prevenir.
Recordei o inicio da minha carreira, quando me desafiei a querer diminuir a mortalidade infantil e a desnutrição. Vieram a minha mente milhares de mães que trocaram o leite materno pela mamadeira diluída em água suja. Outras mães que não vacinam seus filhos, quando não havia ainda cesta básica no Centro de Saúde. Outras mães que limpavam o nariz de todos os seus filhos com o mesmo pano, ou pegavam seus filhos e os humilhavam quando faziam xixi na cama. E ainda mais triste, quando o pai chegava em casa bêbado. Ao ouvir o grito de fome e carinho de seus filhos, os venciam mesmo quando eram muito pequenos. Sabe-se, segundo resultados de pesquisas da OMS (Organização Mundial da Saúde), cuja publicação acompanhei em 1994, que as crianças maltratadas antes de um ano de idade têm uma tendência significativa para violência, e com frequência fazem crimes antes dos 25 anos.
A IGREJA, QUE SOMOS TODOS NÓS, QUE DEVÍAMOS FAZER?
Tive a seguridade de seguir a metodologia de Jesus: organizara as pessoas em pequenas comunidades; identificar líderes, famílias com grávidas e crianças menores de seis anos. Os líderes que se dispusessem a trabalhar voluntariamente nessa missão de salvar vidas, seriam capacitados, no espírito da fé e vida, e preparados técnica e cientificamente, em ações básicas de saúde, nutrição, educação e cidadania. Seriam acompanhados em seu trabalho para que não se desanimassem. Teriam a missão de compartilhar com as famílias a solidariedade fraterna, o amor, os conhecimentos sobre os cuidados com as grávidas e as crianças, para que estes sejam saudáveis e felizes.
Senti que ali estava a metodologia comunitária, pois podia se desenvolver em grande escala pelas dioceses, paróquias e comunidades. Não somente para salvar vidas de crianças, mas também para construir um mundo mais justo e fraterno. Seria a missão do "Bom Pastor", que estão atentos a todas as ovelhas, mas dando prioridade àquelas que mais necessitam. Os pobres e os excluídos.
Naquela maravilhosa noite, desenhei no papel uma comunidade pobre, onde identifique famílias com grávidas e filhos menores de seis anos e lideres comunitários, tanto católicos como de outras confissões e culturas, para levar adiante ações de maneira ecumênica, pois Jesus veio par que "todos tenham Vida e Vida em abundância" (João 10,10). Isto é o que precisa ser feito aqui no Haiti: fazer um mapa das comunidades pobres, identificar as crianças menores de 6 anos e suas famílias e lideres comunitários que desejam trabalhar voluntariamente.
Desde a primeira experiência, a Pastoral da Criança cultivou a metodologia de Jesus, que é aplicada em grande escala. No Brasil, em mais de 40 mil comunidades, de 7.000 paróquias de todas as 272 diocese e preladias. Está se estendendo a 20 países. Estes são, na América Latina e no Caribe: Argentina, Bolívia, Colômbia, Paraguai, Uruguai, Peru, Venezuela, Guatemala, Panamá, República Dominicana, Haiti, Honduras, Costa Rica e México; na África: Angola, Guiné-Bissau, Guiné Conakry e Moçambique e na Ásia: Filipinas e Timor Leste.
Para organizar melhor e compartilhar as informações e a solidariedade fraterna entre as mães e famílias vizinhas, as ações se baseiam em três estratégias de educação e comunicação: individual, de grupo e de massas. A Pastoral da Criança utiliza simultaneamente as três formas de comunicação para reforçar a mensagem, motivar e promover mudanças de conduta, fortalecendo as famílias com informações sobre como cuidar dos filhos, promovendo a solidariedade fraterna.
A educação e comunicação individual se fazem através da 'Visita Domiciliar Mensal nas famílias' com grávidas e filhos. Os líderes acompanham as famílias vizinhas nas comunidades mais pobres, nas áreas urbanas e rurais, nas aldeias indígenas e nos quilombos, e nas áreas ribeirinhas do Amazonas. Atravessam rios e mares, sobem e descem montes de encostas íngremes, caminham léguas, para ouvir os clamores das mães e famílias, para educar e fortalecer a paz, a fé e os conhecimentos. Trocam ideias sobre saúde e educação das crianças e das grávidas; ensinam e aprendem. Com muita confiança e ternura, fortalecem o tecido social das comunidade, o que leva a inclusão social.
Motivados pela Campanha Mundial patrocinadas pela ONU (Organização das Nações Unidas), em 1999, com o tema "Uma vida sem violência é um direito nosso", a Pastoral da Criança incorporou uma ação permanente de prevenção da violência com o lema "A Paz começa em casa". Utilizou como uma das estratégias de comunicação a distribuição de seis milhões de folhetos com "10 Mandamentos para alcançar a paz na família", debatíamos nas comunidades e nas escolas, do norte ao sul do país.
A educação e a comunicação grupal têm lugar cada em cada mês em milhares de comunidades. Esse é o Dia da Celebração da Vida. Momento dedicado ao fortalecimento da fé e da amizade entre famílias. Além do controle nutricional, estão os brinquedos e as brincadeiras com as crianças e a orientação sobre a cidadania. Neste dia as mães compartilham práticas de aproveitamento adequado de alimentos da região de baixo custo e alto valor nutritivo. As frutas, folhas verdes, sementes e talos, que muitas vezes não são valorizados pelas famílias.
Essas ações integram o sistema de informação da Pastoral da Criança para poder acompanhar os esforços realizados e seus resultados através de Indicadores. A desnutrição foi controlada. De mais de 50% de desnutridos no começo, hoje está em 3,1%. A mortalidade infantil foi drasticamente reduzida e hoje está em 13 mortos por mil nascidos vivos nas comunidades com Pastoral da Criança. O índice nacional é 2,33, mas se sabe que as mortes em comunidades pobres, onde estão a Pastoral da Criança, é maior que é na média geral. Em 1982, a mortalidade infantil no Brasil foi 82,8 mil nascidos vivos. Estes resultados têm servido de base para conquistar entidades, como o Ministério da Saúde, Unicef, Banco HSBC, e outras empresas. Elas nos apoiam nas capacitações e em todas as atividades básicas de saúde, nutrição, educação e cidadania. O custo criança/mês é de menos de US$ 1.
CAMPANHAS
A Pastoral da Infância realiza e colabora em várias campanhas para melhorar a qualidade de vida das mulheres grávidas, famílias e crianças. Estes são alguns exemplos:
a. Campanhas de sais de reidratação oral
b. Campanha de Certidão de Nascimento: a falta de informação, a distância dos cartórios e a burocracia fazem com que as pessoas fiquem sem certidões de nascimentos.
c. Campanha de Certidão de Nascimento: a falta de informação, a distância dos escritórios e a burocracia fazem com que as pessoas fiquem sem uma certidão de nascimento. A mobilização nacional para o registro civil de nascimento, que une o Estado brasileiro e a sociedade, [busca] garantir a cada cidadão de pleno direito o nome e os direitos.
d. Campanha para promover o aleitamento materno: o leite materno é um alimento perfeito que Deus colocou à disposição nos primeiros anos de vida.
Permanentemente, a Pastoral da Criança promove o aleitamento materno exclusivo até os seis meses e, em seguida, continuar, com outros alimentos.
e. Campanha de prevenção da tuberculose, pneumonia e hanseníase: as três doenças continuam a afetar muitas crianças e adultos em nosso país.
f. Campanha de Saneamento: o acesso à água potável e o tratamento de águas residuais contribuem para a redução da mortalidade infantil. A Pastoral da Criança, em colaboração com outros organismos, mobiliza a comunidade para a demanda por tais serviços a governos locais.
g. Campanha de HIV/Aids e Sífilis: o teste do HIV/Aids e sífilis durante o pré-natal permite a redução de 25% para 1% do risco de transmissão para o bebê. A Pastoral da Criança apoia a campanha nacional para o diagnóstico precoce destas doenças.
h. Campanha para a Prevenção da morte súbita de bebês "Dormir de barriga para cima é mais seguro": Com a finalidade de alertar sobre os riscos e evitar até 70% das mortes súbitas na infância, a Pastoral da Criança lançou esta grande campanha dirigida às famílias para que coloquem seus bebês para dormir de barriga para cima.
i. Campanha de Prevenção do Abuso Infantil: Com esta campanha, a Pastoral da Criança esclarece as famílias e a sociedade sobre a importância da prevenção da violência, espancamentos e abuso sexual.
j. Campanha - 20 de novembro, dia de oração e de ação para as crianças: A Pastoral da Criança participa dos esforços globais para a assistência integral e proteção a crianças e adolescentes, em colaboração com a Rede Mundial de Religiões para a Infância (GNRC).
Desde a sua fundação, a Pastoral da Criança investe na formação dos voluntários e no acompanhamento de crianças e mulheres grávidas, na família e na comunidade.
Atualmente, existem 1.985.347 crianças, 108.342 mulheres grávidas de 1.553.717 famílias. Sua metodologia comunitária e seus resultados, assim como sua participação na promoção de políticas públicas com a presença em Conselhos de Saúde, Direitos da Criança e do Adolescente e em outros conselhos levaram a mudanças profundas no país, melhorando os indicadores sociais e econômicos. Os resultados do trabalho voluntário, com a mística do amor a Deus e ao próximo, em linha com nossa mãe terra, que a todos deve alimentar, nossos irmãos, os frutos e as flores, nossos rios, lagos, mares, florestas e animais. Como os pássaros, que cuidam de seus filhos ao fazer um ninho no alto das árvores e nas montanhas, longe de predadores, ameaças e perigos, e mais perto de Deus, deveríamos cuidar de nossos filhos como um bem sagrado, promover o respeito a seus direitos e protegê-los.
Muito Obrigada!
Que Deus esteja convosco!
Dra. Zilda Arns Neumann
Médica pediatra e especialista em Saúde Pública
Fundadora e Coordenadora da Pastoral da Criança Internacional
Coordenadora Nacional da Pastoral da Pessoa Idosa
HOMENAGEM ESPECIAL DA PASTORAL DA CRIANÇA DA DIOCESE DE SANTO ÂNGELO
ESTOU A SERVIÇO DE QUEM?
Ajudar o outro, mutirões, participação na comunidade,... são ações muito “importantes”, mas faço se sobra tempo. Esse tempo é durante uma tragédia, mas de forma rápida e propagandista.
Um dia vai sobrar tempo. Olha, é muita coisa, é muito trabalho! Temos que trabalhar muito, pois o final do mês é cruel: contas de telefone, Internet, TV a cabo, prestação do carro novo – enfim, conforto é tudo -, seguro de tudo, colégios, cursinhos para os filhos, prestação da casa,... Ufa! Não sobra tempo para coisas supérfluas.
Tudo é urgente. Prefiro não ir para o céu do que ter o nome sujo no SPC ou SERASA. Nesse caso, fim do mundo não é nada perto do fim do mês!
Quem sabe o tema da Campanha da Fraternidade Ecumênica deste ano ajude a refletir: “vocês não podem servir a Deus e ao dinheiro"
EDUCAÇÃO FEVEREIRO ABRE O ANO ESCOLAR RUBEM ALVES NOS LEVA A PENSAR SOBRE A ESCOLA QUE DEVEMOS ESCOLHER
CARTA AOS PAIS - Rubem Alves
Também sou pai e portanto compreendo. Vocês querem o melhor para o filho, para a filha. A melhor escola, os melhores professores, os melhores colegas. Vocês querem que filhos e filhas fiquem bem preparados para a vida. A vida é dura e só sobrevivem os mais aptos. É preciso ter uma boa educação.
Compreendo, portanto, que vocês tenham torcido o nariz ao saber que a escola ia adotar uma política estranha: colocar crianças deficientes nas mesmas classes das crianças normais. Os seus narizes torcidos disseram o seguinte:
Não gostamos. Não deveria ser assim! O problema começa com o fato de as crianças deficientes serem fisicamente diferentes das outras, chegando mesmo, por vezes, a ter uma aparência esquisita. E isso cria, de saída, um mal-estar... digamos... estético. Vê-las não é uma experiência agradável. É preciso se acostumar... Para complicar há o fato de as crianças deficientes serem mais lerdas: elas aprendem devagar. As professoras vão ser forçadas a diminuir o ritmo do programa para que elas não fiquem para trás. E isso,
evidentemente, trará prejuízos para nossos filhos e filhas, normais, bonitos, inteligentes. É preciso ser realista; a escola é uma maratona para se passar no vestibular. É para isso que elas existem. Quem fica para trás não entra... O certo mesmo seria ter escolas
especializadas, separadas, onde os deficientes aprenderiam o que podem aprender, sem atrapalhar os outros.
Se é assim que vocês pensam eu lhes digo: Tratem de mudar sua maneira de pensar rapidamente porque, caso contrário, vocês irão colher frutos muito amargos no futuro. Porque, quer vocês queiram quer não, o tempo se encarregará de fazê-los deficientes.
É possível que na sua casa, num lugar de destaque, em meio às peças de decoração, esteja um exemplar das Escrituras Sagradas. Via de regra a Bíblia está lá por superstição. As pessoas acreditam que Deus vai proteger. Se assim fosse, melhor que seguro de vida seria levar uma Bíblia sempre no bolso. Não sei se vocês a lêem. Deveriam. E sugiro um poema sombrio, triste e verdadeiro do livro de Eclesiastes. O autor, já velho, aconselha os moços a pensar na velhice. Lembra-te do Criador na tua mocidade, antes que cheguem os
dias das dores e se aproximem os anos dos quais dirás:
"Não tenho mais alegrias..." Antes que se escureça a luz do sol, da lua e das estrelas e voltem as nuvens depois da chuva... Antes que os guardas da casa comecem a tremer e os homens fortes a ficar curvados... Antes que as mós sejam poucas e pararem de moer... Antes que a escuridão envolva os que olham pelas janelas... Antes que as pessoas
se levantem com o canto dos pássaros... Antes que cessem todas as canções... Então se terá medo das alturas e se terá medo de andar nos caminhos planos... Quando a amendoeira florescer com suas flores brancas, quando um simples gafanhoto ficar pesado e as alcaparras não tiverem mais gosto... Antes que se rompa o fio de prata e se despedace a taça de ouro e se quebre o cântaro junto à fonte e se parta a roldana do poço e o pó volte à terra... Brumas, brumas, tudo são brumas... (Eclesiastes 12: 1-8)
Os semitas eram poetas. Escreviam por meio de metáforas. Metáfora é uma palavra que sugere uma outra. Tudo o que está escrito nesse poema se refere a você, a mim, a todos. Antes que se escureça a luz do sol... Sim, chegará o momento em que os seus olhos não
verão como viam na mocidade. Os seus braços ficarão fracos e tremerão no seu corpo curvo. As mós - seus dentes - não mais moerão por serem poucos. E a cama pela manhã, tão gostosa no tempo da mocidade, ficará incômoda. Você se levantará tão cedo quanto os
pássaros e terá medo de andar por não ver direito o caminho. É preciso ser prudente porque os velhos caem com facilidade por causa de suas pernas bambas e podem quebrar a cabeça do fêmur. Pode até ser que você venha a precisar de uma bengala. Por acaso os moinhos pararão de moer? Não, os moinhos não param de moer. Mas você parará de ouvir. Você está surdo. Seu mundo ficará cada vez mais silencioso. E conversar ficará penoso. Você verá que todos estão rindo. Alguém disse uma coisa engraçada. Mas você não ouviu. Você rirá, não por ter achado graça, mas para que os outros não percebam que você está surdo.
Você imaginou uma velhice gostosa. E até comprou um sítio com piscina e árvores. Ah! Que coisa boa, os netos todos reunidos no "Sítio do Vovô", nos fins de semana! Esqueça. Os interesses dos netos são outros. Eles não gostam de conviver com deficientes. Eles não aprenderam a conviver com deficientes. Poderiam ter aprendido na escola mas não aprenderam porque houve pais que protestaram contra a presença dos deficientes.
A primeira tarefa da educação é ensinar as crianças a serem elas mesmas. Isso é extremamente difícil. Fernando Pessoa diz: Sou o intervalo entre o meu desejo e aquilo que os desejos dos outros fizeram de mim. Freqüentemente as escolas esmagam os desejos das
crianças com os desejos dos outros que lhes são impostos. O programa da escola, aquela série de saberes que as professoras tentam ensinar, representa os desejos de um outro, que não a criança. Talvez um burocrata que pouco entende dos desejos das crianças. É
preciso que as escolas ensinem as crianças a tomar consciência dos seus sonhos!
A segunda tarefa da educação é ensinar a conviver. A vida é convivência com uma fantástica variedade de seres, seres humanos, velhos, adultos, crianças, das mais variadas raças, das mais variadas culturas, das mais variadas línguas, animais, plantas, estrelas... Conviver é viver bem em meio a essa diversidade. E parte dessa diversidade são as pessoas portadores de alguma deficiência ou diferença. Elas fazem parte do nosso mundo. Elas têm o direito de estar aqui. Elas têm direito à felicidade. Sugiro que vocês leiam um
livrinho que escrevi para crianças, faz muito tempo: Como nasceu a alegria. É sobre uma flor num jardim de flores maravilhosas que, ao desabrochar, teve uma de suas pétalas cortada por um espinho. Se o seu filho ou sua filha não aprender a conviver com a diferença, com os portadores de deficiência, e a ser seus companheiros e amigos, garanto-lhes: eles serão pessoas empobrecidas e vazias de sentimentos nobres. Assim, de que vale passar no vestibular?
Li, numa cartilha de curso primário, a seguinte estória: Viviam juntos o pai, a mãe, um filho de 5 anos, e o avô, velhinho, vista curta, mãos trêmulas. Às refeições, por causa de suas mãos fracas e trêmulas, ele começou a deixar cair peças de porcelana em que a comida era servida. A mãe ficou muito aborrecida com isso, porque ela gostava muito do seu jogo de porcelana. Assim, discretamente, disse ao marido: Seu pai não está mais em condições de usar pratos de porcelana. Veja quantos ele já quebrou! Isso precisa parar... O marido, triste com a condição do seu pai mas, ao mesmo tempo, sem desejar contrariar a mulher, resolveu tomar uma providência que resolveria a situação. Foi a uma feira de artesanato e comprou uma gamela de madeira e talheres de bambu para substituir a porcelana.
Na primeira refeição em que o avô comeu na gamela de madeira com garfo e colher da bambu o netinho estranhou. O pai explicou e o menino se calou.
A partir desse dia ele começou a manifestar um interesse por artesanato que não tinha antes. Passava o dia tentando fazer um buraco no meio de uma peça de madeira com um martelo e um formão. O pai, entusiasmado com a revelação da vocação artística do filho, lhe perguntou: O que é que você está fazendo, filhinho? O menino, sem tirar os olhos da madeira, respondeu: Estou fazendo uma gamela para quando você ficar velho...
Pois é isso que pode acontecer: se os seus filhos não aprenderem a conviver numa boa com crianças e adolescentes portadores de deficiências eles não saberão conviver com vocês quando vocês ficarem deficientes. Para poupar trabalho ao seu filho ou filha sugiro que visitem uma feira de artesanato. Lá encontrarão maravilhosas peças de madeira...
ÁLCOOL - DA DIVERSÃO AO VÍCIO
AS DROGAS ILÍCITAS TÊM SUA PORTA DE ENTRADA PELAS DROGAS LÍCITAS
O Ministério da Saúde publicou um artigo sobre as drogas e seus efeitos. Nesse artigo, o álcool é colocado como uma das formas de entrada no mundo das drogas ilícitas, como maconha, crack, cocaína, merla,... A questão é que o álcool é sinônimo de diversão e o grande patrocinador da mídia televisa brasileira, tornando ineficaz as campanhas de prevenção ao abuso de álcool. Como não beber se a cada intervalo de cada programa que assistimos são mostradas propagandas convincentes e atrativas para o uso do álcool.
O texto que dispomos aqui, do Ministério da Saúde, trata do álcool quando ele se torna um problema de vício.
1. Quais os sinais do Problema
Como descobrir se você - ou alguém próximo - tem algum problema com a bebida? Responda às quatro perguntas a seguir e tente descobrir. (para ajudar a lembrar estas perguntas, note que a primeira letra da palavra chave em cada uma das perguntas formam a palavra “DICA”)
• Você já sentiu que deveria Diminuir a bebida?
• As pessoas já te Irritaram quando criticaram sua bebida?
• Você já sentiu mal ou Culpado a respeito de sua bebida?
• Você já tomou bebida alcóolica pela manhã para “Aquecer” os nervos ou para se livrar de uma ressaca (Abridor de olhos)?
Apenas um “sim” sugere um possível problema. Em qualquer dos casos, é importante ir ao médico ou outro profissional da área de saúde imediatamente para discutir suas respostas. Eles podem te ajudar a determinar se você tem ou não um problema com a bebida, e, se você tiver, poderão recomendar a melhor atitude para você tomar.
E mesmo se você respondeu um “não” a todas as perguntas, se você se depara com problemas relacionados ao álcool em seu trabalho, relacionamentos, saúde ou com a lei, você deve procurar ajuda profissional. Os efeitos do álcool podem ser muito sérios e até fatais, tanto para você quanto para outros.
2. A decisão de pedir ajuda
Reconhecer que se precisa de ajuda para um problema com álcool talvez não seja fácil. Porém, tenha em mente que, o quanto antes vier a ajuda, melhores serão as chances de uma recuperação bem sucedida. Qualquer relutância que você sinta em discutir sobre a sua bebida com seu profissional de saúde pode reforçar muitos preconceitos sobre o alcoolismo e os dependentes de álcool.
Em nossa sociedade prevalece o mito de que um problema com álcool é sinal de fraqueza moral. Como resultado disto, você pode até achar que procurar ajuda é admitir algum tipo de defeito, que você deveria se envergonhar. Contudo, o alcoolismo não é uma doença que indique maior fraqueza que o diabetes ou a asma. E ainda, identificar um possível problema com álcool tem uma compensação enorme, uma chance de viver com mais saúde.
Quando você for a seu médico, ele vai lhe fará uma série de perguntas sobre o seu uso de álcool para determinar se você está ou não tendo problemas por causa do álcool. Tente ser o mais completo e honesto possível. Você também pode passar por exames físicos. Se o médico concluir que você é dependente de álcool, ele deve recomendar que você se dirija a um especialista para diagnosticar e tratar o alcoolismo. Você deverá tomar decisões e entender tudo sobre a necessidade do tratamento e as formas de tratar a dependência.
3. Tratamento
A natureza do tratamento depende da gravidade do alcoolismo do indivíduo e dos recursos disponíveis na comunidade. O tratamento pode incluir a desintoxicação (o processo de retirar o álcool do sistema de uma pessoa com segurança); tomar medicamentos receitados pelo médico para ajudar a evitar o retorno à bebida uma vez que já parou; e aconselhamento individual e/ou em grupo.
Há tipos de aconselhamento promissores que ensinam a recuperar dependentes de álcool e a identificar situações e sentimentos que levam à necessidade de beber e de descobrir novas maneiras de lidar com a ausência do álcool. Quaisquer destes tratamentos podem ocorrer tanto em um hospital, como em tratamento residencial ou ambulatorial (o paciente fica em sua casa e vai às consultas, até todos os dias).
Como o envolvimento com a família é importante para a recuperação, muitos programas oferecem aconselhamento conjugal e terapia familiar como parte do processo de tratamento. Alguns programas podem oferecer para o dependente recursos vitais da comunidade como a assistência legal, treinamento de trabalho, creche e aulas para pais.
4. Alcoolismo tem cura?
Embora o alcoolismo seja uma doença tratável, ainda não há cura. Isto significa que mesmo que um dependente de álcool esteja sóbrio por muito tempo e tenha sua saúde de volta, ele ainda está suscetível a recaídas e deve continuar a evitar todas as bebidas alcóolicas. “Reduzir” não adianta; parar é necessário para uma recuperação bem sucedida. Contudo, até indivíduos determinados a ficarem sóbrios podem ter recaídas, antes de chegar à sobriedade de longo prazo.
Recaídas são muito comuns e não significam que uma pessoa fracassou ou não pode eventualmente se recuperar do alcoolismo. Tenha em mente também que todo dia que um dependente do álcool fica sóbrio antes de uma recaída é extremamente valioso, tanto para o indivíduo quanto para sua família. Se ocorre uma recaída, é muito importante tentar parar de beber de novo e obter o apoio necessário para não beber mais. A recaída não destrói as conquistas que ocorreram durante a abstinência, na maioria das vezes.
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FAZER MUITO COM POUCO UMA LIÇÃO DE ECONOMIA SOLIDÁRIA PARA CUIDAR DA VIDA
A reportagem de Denise Ribeiro, da Agência Envolverde, especial para o Instituto Ethos, mostra como o trabalho da Pastoral da Criança, iniciado e organizado por Zilda Arns, pode cuidar da vida com poucos recursos financeiros. Acompanhemos esse texto que mostra uma verdadeira possibilidade de superar a miséria humana e proporcionar vida com qualidade para as pessoas com pouco recurso, desde que seja bem organizado e bem aplicado. Algo que é inacreditável , mostra que a dignidade de vida não custa caro. O Japão gasta 18 milhões de dólares com animais de estimação. No Haiti, será investido 8 milhões para reconstrução.
Até sua morte, no terremoto do Haiti, Zilda Arns era pouco conhecida da maioria dos economistas, investidores e empresários comprometidos com o crescimento tradicional do PIB. A médica sanitarista, no entanto, deveria figurar nos anais das boas escolas de administração do mundo inteiro, como criadora de uma metodologia de trabalho revolucionária e altamente eficiente.
A Pastoral da Criança, que ela ajudou a criar em 1983 como desafio proposto pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) à Igreja Católica, exibe indicadores invejáveis, seja qual for o ângulo adotado para analisar o desempenho da entidade. O mais admirável é o custo mensal por cada uma das cerca de 2 milhões de crianças atendidas: menos de US$ 1,00. Os recursos de pouco mais de R$ 35 milhões utilizados no exercício de 2008 representaram um custo mensal de R$ 1,69 por criança, decomposto em vários investimentos, como capacitação de voluntários (R$ 0,18 por criança/mês), apoio geração de renda (R$ 0,06) e educação de jovens e adultos (R$ 0,05).
21-01-2010.
Presente em 42 mil comunidades pobres e em 7.000 paróquias de todas as Dioceses do Brasil, a Pastoral se move num trabalho de formiga, que envolve 260 mil voluntários (92% deles mulheres). Imbuídos do espírito missionário, eles dedicam, em média, 24 horas por mês ao trabalho de orientar mães e famílias para que cuidem bem de suas crianças. O objetivo primordial da entidade, organismo de ação social da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), é “reduzir as causas da desnutrição e da mortalidade infantil e promover o desenvolvimento integral das crianças, desde a concepção até os 6 anos de idade”.
O atendimento a cerca de 1,5 milhão de famílias em mais de 3.500 cidades brasileiras trouxe um novo sentido de dignidade e cidadania aos excluídos da nação. Fez também despencar os índices de desnutrição e de mortalidade infantil a patamares ainda hoje perseguidos pela ONU. Em 1983, a Pastoral encontrou 50% de crianças desnutridas – hoje elas são 3,1% das atendidas. A mortalidade infantil despencou de 127 para 13 por mil nascidos vivos. Que outra empresa, ONG ou entidade governamental pode se dar ao luxo de ostentar desempenho tão robusto?
Graças à coordenação e ao empenho de Zilda Arns e à sua rede de voluntários, o Brasil poderá dizer que fez parte da lição de casa proposta pela Declaração do Milênio, aprovada pelas Nações Unidas em setembro de 2000. Das oito metas a serem atingidas até 2015, pelo menos duas – “erradicar a extrema pobreza e a fome” e “reduzir em 50% a mortalidade infantil” – sem dúvida alguma devem muito à Pastoral da Criança.
Que desde 2008 exporta sua tecnologia social para outros continentes. Angola, Moçambique, Guiné-Bissau; Timor Leste, Filipinas, Paraguai, Peru, Bolívia, Venezuela, Argentina, Chile, Colômbia, Uruguai, Equador e México. No Haiti, Zilda Arns estava justamente empenhada em divulgar a metodologia que criou e que tem caráter ecumênico. Numa entrevista, ela contava como voluntários muçulmanos se sentiam felizes por poder ajudar seus conterrâneos da Guiné-Bissau.
DISTORÇÃO DO PIB
A repercussão desse incansável trabalho, no entanto, não é levado em conta pelos homens que cuidam do produto interno bruto (PIB). Quem acusa esse grave desvio, sempre que tem oportunidade de tocar no assunto, é Ladislau Dowbor, economista e professor titular da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Na última Conferência do Instituto Ethos, ele voltou ao tema, usando a performance da Pastoral da Criança como exemplo. Ele diz que seus excelentes resultados na saúde preventiva não são levados em conta para quem vincula progresso e crescimento a aumento do PIB.
Afirma que os agentes da Pastoral são responsáveis, nas regiões onde trabalham, por 50% da redução da mortalidade infantil e 80% da redução das hospitalizações, e argumenta que, “com isso, menos crianças ficam doentes, o que significa que se consomem menos medicamentos, usam-se menos serviços hospitalares e as famílias vivem mais felizes”. E completa, indignado: “Mas o resultado do ponto de vista das contas econômicas é completamente diferente: ao cair o consumo de medicamentos, o uso de ambulâncias, de hospitais e de horas de médicos, reduz-se também o PIB. Mas o objetivo é aumentar o PIB ou melhorar a saúde (e o bem-estar) das famílias?”.
Já o trabalho da Pastoral da Criança não é contabilizado como contribuição para o PIB. “Para o senso comum, isto parece uma atividade que não é propriamente econômica, como se fosse um band-aid social. Os gestores da Pastoral, no entanto, já aprenderam a corrigir a contabilidade oficial. Contabilizam a redução do gasto com medicamentos, que se traduz em dinheiro economizado na família, e que é liberado para outros gastos. Nesta contabilidade corrigida, o não-gasto aparece como aumento da renda familiar. As noites bem dormidas quando as crianças estão bem representam qualidade de vida, coisa muitíssimo positiva, e que é afinal o objetivo de todos os nossos esforços. O fato de a mãe ou o pai não perderem dias de trabalho pela doença dos filhos também ajuda a economia”, esclarece.
Zilda Arns, uma mulher atenta às demandas dos mais pobres, fez pelo Brasil o que a maioria dos políticos e governantes juntos não fizeram nos últimos 30 anos. Sua obra permanecerá, porque se apoia em pilares sólidos, chamados amor, solidariedade, fé, compaixão, transparência. “Estou convencida de que a solução da maioria dos problemas sociais está relacionada à redução urgente das desigualdades sociais, à eliminação da corrupção, à promoção da justiça social, ao acesso à saúde e à educação de qualidade e à mútua ajuda financeira e técnica entre as nações, para a preservação e recuperação do meio ambiente”, disse ela numa conferência na Tailândia, em outubro passado. Sábia Zilda.
ECONOMIA SOLIDÁRIA
Por Milton Gerarhdt*
Construindo a PRODUÇÃO sustentável, o COMÉRCIO justo e o CONSUMO solidário
Anualmente acontece entre as grandes potências econômicas mundiais em Davos, nos Alpes Suiços, o Fórum Econômico Mundial. Este acontece basicamente para definir os rumos do comércio internacional, bem como influenciar e definir os fluxos da produção e do consumo internacional a partir do interesses econômicos de grandes grupos.
Ao mesmo tempo em que as potências mundiais se encontram em Davos, existem pessoas, grupos e organizações que promovem um grande encontro mundial – o Fórum Social Mundial (FSM). Sua primeira edição foi realizada aqui no Brasil, em Porto Alegre – RS, em 2001. É neste espaço, que ocorre na mesma data do encontro de Davos, que se tem construído e mostrado que “Um Outro Mundo é Possível”, uma outra base de desenvolvimento é possível.
O novo desenvolvimento parte da realidade e necessidade das pessoas e comunidades, para então fazer a opção por investimentos de tecnologias responsáveis, ambientalmente corretas, socialmente justas e economicamente viáveis. Dentro das afirmações do FSM nasce também a proposta de que Outra Economia é Possível e Acontece.
Quando falamos que “Outra Economia Acontece”, estamos nos referindo à prática da Economia Solidária, que aparece justamente nas iniciativas de produção, comercialização e consumo solidários. Trata-se de um eixo complexo, pois envolve e articula os diferentes estágios da atividade econômica dos empreendimentos solidários, desde a produção até o consumidor final.
Um dos grandes desafios está em justamente em construir uma diversidade de estratégias para a alteração dos atuais mecanismos de funcionamento do mercado e das atividades econômicas, que ao mesmo tempo deem um retorno imediato aos empreendimentos solidários para que a economia solidária aconteça concretamente e mostre seus resultados e suas vantagens para a sociedade brasileira, buscando articular a dimensão política com a dimensão econômica.
Presenciamos, reconhecemos e valorizamos experiências e processos de produção de alimentos orgânicos e agroecológicos, de preservação de sementes que preservam a cultura e, principalmente, a segurança alimentar e nutricional de comunidades e povos, de organizações de produtores trabalhando, arduamente, por criarem mercados justos (têxtil, artesanato, reciclagem, moradia saudáveis, turismo responsável entre outros).
A vida econômica dos empreendimentos solidários e as diversas possibilidades de transformação dos atuais modelos de produção, de mercado e de consumo em nossa sociedade, dependem essencialmente da conquista de políticas públicas voltadas à potencialização, fortalecimento e consolidação de redes e cadeias de produção, comercialização e consumo solidárias nas áreas de logística, infraestrutura e para a criação de espaços de comercialização e distribuição.
Hoje no Brasil existem (e resistem) várias iniciativas de comercialização e logística para o bem viver. Temos lojas, feiras agroecológicas e de Economia Solidária, centrais de comercialização, armazéns, entrepostos para comercialização, centros públicos de formação e comercialização, clubes de troca coletiva se organizam para produzir, comercializar e consumir de maneira justa e responsável.
Em diversas experiências de produção parcerias estratégicas na preservação da vida, valorização da saúde, das tradições e da identidade de povos, onde o mercado é o espaço da troca, do encontro de saberes, da partilha e da construção de laços sociais, voltados para a solidariedade e a paz.
Nesse sentido, o consumo é encarado como um ato responsável e político, onde o resultado da opção de consumo vai alimentar este novo modelo de sociedade, baseado na centralidade da vida e no respeito às gerações futuras, como espaço de articulação das redes e cadeias nacionais e internacionais. Ou a opção vai ser de investir no consumo de produtos e marcas que são responsáveis por alimentar a indústria bélica, os grandes laboratórios químicos que promovem o desenvolvimento de transgênicos, venenos e morte.
Práticas de uma Outra Economia que já acontece:
- grupos familiares da agricultura de base agroecológica;
- hortas comunitárias e peri-urbanas comunitárias;
- cooperativas de diferentes tipos de trabalho autogestionário;
- empreendimentos autogestionários;
- oficinas de produção associada;
- centrais de comercialização de agricultores familiares;
- associações de artesãs/os;
- bancos comunitários autogestionários;
- fundos rotativos solidários;
- grupos de trocas solidária;
- entidades de assessoria da economia solidária;
*Formado em Teologia e Filosofia
“O AUTOR DE SI MESMO” O MUNDO QUE TEMOS FOMOS NÓS OU DEUS QUE CRIOU?
Por Elias e Adair Adams
O título “O Autor de Si Mesmo” é de uma crônica de Machado de Assis escrito a mais de cem anos atrás. O humor característico de Machado de Assis que se manifesta neste escrito, mostra na verdade a cruenta história de um menino que foi torturado pelos pais e deixado em uma caixa de tal forma que as galinhas pudessem comer sua carne.
Assim ocorrendo, o menino morreu no quarto dia. Então Machado de Assis, a partir das idéias de Schopenhauer, “diz” ao menino que a culpa de seu sofrimento era dele mesmo, pois ele é o resultado do amor entre seus pais. Só ouve amor entre Guimarães e Cristina por que ele - Abílio - era objetivado. Como ele foi o “responsável” por ter vindo ao mundo, o que lhe aconteceu é apenas uma conseqüência da vinda.
Essa visão cômica e ao mesmo tempo trágica de Machado de Assis sobre essa história real é correspondente a nossa época. Abílio pagou o preço por ter vindo ao mundo; um mundo que não queria sua presença ou ela simplesmente incomodava. Ao nos chocarmos com a história, vemos que não é incomum encontrarmos Abílios em nossas comunidades.
Também por isso, a Campanha da Fraternidade 2010 traz consigo uma discussão pertinente: Qual o mundo que esta economia gerará? A história de Abílio repetir-se-á em milhões de crianças? E qual o tipo de relações humanas que estão sendo construídas e valorizadas pelo mundo uma vez que elas descobrem nossos olhos ou vedam-nos para todos os Abílios?
Estas indagações apenas nos lançam a uma visão futura. Contudo, é no presente que isso de determina. É a partir do valor que damos às relações que se constrói uma outra realidade para nossas futuras gerações. Se o início está em repensar nossas relações, principalmente com os mais necessitados, o passo seguinte é repensar nosso meio. Dentre os objetivos específicos da Campanha deste ano está a seguinte pauta: “buscar a superação do consumismo, que faz com que o ‘ter’ seja mais importante do que as pessoas”...
Imaginemos como Abílio explicaria para o seu filho mais velho que o irmãozinho morreu por que ele não pode encontrar água no mercado naquela semana, mais ainda de que ele sabia da existência do Aqüífero Guarani. Há a necessidade de vermos o futuro a partir do presente, daquilo que realmente existe.
Seguindo esta linha, a campanha da Fraternidade deste ano nos leva centralmente a refletir sobre a quem servir: Deus ou Dinheiro? Quando optamos por servir a Deus tomamos a direção dos pobres, dos pequeninos convertendo nossa centralidade para o irmão necessitado, como o fez Zilda Arns.
Quando desejamos servir ao dinheiro permitimos que Abílios incontáveis morram diariamente. Abílio pode ter morrido pela falta de uma relação, de um amor de pai e mãe. Mas, como podemos conceber que nas futuras gerações números incalculáveis de pessoas morram pelo excesso de apego ao dinheiro? Verdade, isso é inconcebível! Contudo, essa geração já está aí na porta de nossas casas. E enquanto que aspiramos por mais lucros caminhamos em sentido contrário à esse cuidado e concebemos que esse massacre ocorra.
O autor de si mesmo nada mais é do que o extremo do consumismo: dizer que Deus tem culpa sobre o sofrimento dos outros é servir ao dinheiro. Ser o autor de si próprio é assumir todo tipo de responsabilidade pelo que ocorre: sou responsável por não ter água potável, por não ter ar puro; é a representação do total individualismo, da quebra absoluta de todas as relações. A economia para a morte gerada pela presente estrutura solidifica a situação dos desfavorecidos, e Deus morre com ele.
Aquilo que acontece no presente é fruto de um plantio do homem ao longo de sua história. Com olhos sempre visualizando dinheiro, desenvolvimento, consumo, mercado é normal que se pergunta onde está Deus, onde estava no momento da tragédia do Haiti, e assim em todas as tragédias. Deus estava em todos aqueles que morreram desgraçadamente por um evento da estrutura da natureza.
O terremoto no Haiti e tantos outros eventos podem ser compreendidos como a constante queda da Torre de Babel. O que o homem, que pensa ser autor de si mesmo, absoluto, arrogante, grande poderoso, pretende constantemente construir um desenvolvimento até alcançar o céu. E, nesse acontecimento trágico visualizou-se por todo o mundo a miséria, a pobreza, as injustiças que um povo pode sofrer. No terremoto morreram fisicamente os que já não tinham vida como dignidade.
A Torre de Babel atual está sendo construída com uma única linguagem chamada desenvolvimento econômico. É uma Torre muito cara. Vejamos o preço: 1 bilhão de pessoas passando fome; destruição do meio ambiente; guerras por produtos econômicos; poluição das águas;...
Onde está Deus? Essa pergunta sempre é feita por um grupo que realmente não entende nem a pergunta que faz. Primeiro, porque nunca abriu-se espaço para Deus onde estão. Segundo, que não entendem que na estrutura da criação os mecanismos, as condições de matar vidas ou salvar já estão dadas. Basta escolher. Podemos optar, por exemplo, entre as corrupções e desvios de dinheiro ou por um trabalho como da Pastoral da Criança.
A Campanha da Fraternidade 2010 propõe que o centro, o motor, a direção da economia não seja o desenvolvimento financeiro e tecnológico mas a solidariedade. Solidários em cuidar da casa – chamada de planeta terra – onde vivem bilhões de seres humanos e toda uma natureza abundante. Que todos sejam autores responsáveis pela vida presente e futura através da economia solidária é o desejo da Campanha da Fraternidade e principalmente de quem sofre. Que cada um assuma responsavelmente o compromisso com a vida, com um desenvolvimento equilibrado, e para que Abílios não seja o “autor de si mesmo”. Servir ao irmão é servir a Deus. E a primeira forma de servir a Deus é servir ao irmão.
TERREMOTO NATURAL E TERREMOTO HUMANO HAITI É FRUTO DE UMA ECONOMIA DESEQUILIBRADA E NÃO FRATERNA
Por Adair Adams*
A história do Haiti pode ser descrita como um longo processo de destruição pela exploração colonial, opressão política, devastação ambiental e outros tantos fatores, tem no momento presente a vida diária da maioria das pessoas como uma luta pela sobrevivência, distante dos confortos da civilização.
Mas nas condições extremas resultantes do terremoto, agravadas pelo abandono em que vivem os pobres do país, a precariedade costumeira se converteu em carência quase absoluta, obrigando a população a fazer o possível para lutar pela vida: mortos foram enterrados sem os ritos tradicionais, supermercados foram saqueados, até orfanatos foram roubados.
Segundo Miguel Conde, em matéria para o Jornal o Globo, a possibilidade de “irrupção da barbárie tem sido invocada pelos americanos para justificar a prioridade dada ao envio de militares sobre o de médicos. Caixas de alimento foram jogadas de aviões dos EUA, como se eles sobrevoassem um campo de guerra. Os próprios haitianos, porém, tiveram reações variadas à situação de ruína em que se encontram”.
Para o psicanalista Chaim Katz a tragédia do Haiti mostra os impulsos contraditórios do ser humano diante do colapso social que lá acontece. “Entre atos de violência e brigas nas filas de comida, os habitantes também deram demonstrações de solidariedade, às vezes mais rápidas e eficientes do que a assistência das forças internacionais”.
1. “Quando se perdem, no modo imediato (como o do terremoto), as referências sígnicas e simbólicas que nos constituem, o psiquismo tende a se desligar delas e procurar, rapidamente, inconscientemente, outras ligações. O pânico dispersa os processos psíquicos estabelecidos e acompanha a disposição dos eventos, mas também reúne os elementos dispersados”.
2. “Os chamados elementos sociais habituais se rebaixam, ao menos temporariamente, perdem sua importância e se substituem por outros “elementos” pulsionais, o chamado à sobrevivência, a proteção do corpo próprio, mas também a compaixão pelos outros, cuidados e proteção com a alteridade”.
A VIDA SE ORGANIZANDO EM MOVIMENTOS OPOSTOS
Segundo Miguel Conde, em relatos de pesquisadores da Unicamp – São Paulo, presentes no Haiti mostra que nos últimos dias há iniciativas de distribuição de água e comida tomadas pelos próprios haitianos, ainda pouco notadas em comparação às imagens mais dramáticas que têm circulado pela imprensa mundial.
Para os psicanalistas Katz e José Renato Avzaradel as reações dos haitianos não podem ser lidas como reflexos da natureza humana, apenas, mas devem ser situadas no contexto histórico em que ocorrem.
1. “O problema não é só o terremoto, é o terremoto numa sociedade devastada. É diferente quanto uma tragédia atinge um lugar em que as pessoas têm a percepção de que há um amparo social. No Haiti, isso não existe. É uma população abandonada”.
2. “Os efeitos da tragédia não são apenas físicos, mas também mentais. Os sobreviventes de eventos do tipo muitas vezes têm que lidar com traumas e com a chamada “culpa do sobrevivente”: a angústia por ter escapado enquanto pessoas amadas morreram. Marco Antonio Coutinho Jorge afirma que um terremoto como o do Haiti se encaixa na definição psicanalítica de um acontecimento traumático: um evento inesperado que ameaça a integridade do sujeito e do qual ele não consegue dar conta simbolicamente, ou seja, não consegue transformar em palavras”.
NO QUE ACREDITAM OS QUE ESTÃO LONGE
Primeiramente, que um terremoto desses “revela nossa impotência radical diante das forças da natureza. Não é à toa que abalou todo mundo, que está passando na televisão toda hora. Nós nos identificamos com esse sofrimento, porque sabemos que também estamos sujeitos a ele”.
Segundo, que nessas horas o homem percebe que ele tem mais força em grupo do que isolado, surgem os gestos de solidariedade. Para a psicanalista Maria Rita Kehl, o trauma pode ser resolvido pela fala, e que o perigo numa situação dessas é que o que é falado sobre a tragédia pelos meios de comunicação “tire das vítimas a sua voz, tratando-as mais como coisas do que como sujeitos”.
Para Miguel, a abordagem da “vítima como nada mais que vítima” é preocupante e reveladora da falta de fraternidade. A cobertura dos meios de comunicação que só aborda as manifestações mais visíveis da dor é muitas vezes motivadas por interesses de audiência, logo, com ganhos financeiros, podendo acabar apresentando as vítimas como não-sujeitos, matando o sentido da vida no presente de quem não morreu na tragédia.
AS VIDAS DO HAITI E OS ANIMAIS DO JAPÃO
Na reconstrução do Haiti são necessários 8 bilhões de dólares a serem investidos. Uma reconstrução que em termos de materialidade. Pois, todas as vidas que ali se perderam não tem preço algum que pague.
No Japão, são gastos 18 bilhões de dólares por ano com animais de estimação. Não se trata de dizer que os animais não são importantes. Muito ao contrário. A questão é o quanto se investe e o que é prioridade. Até poderia gastar os 18 bilhões em animais de estimação, mas que em países como o Haiti os seres humanos sejam uma parte da natureza que pode desaparecer, como acontece todos os dias, com a maior naturalidade.
Diante disso, acreditamos que as ajudas financeiras são realmente expressões de verdadeira fraternidade. A indiferença com que aquele povo foi tratado revela algo diabólico no ser humano. Como chamar de fraternidade alguns dólares, bem menos que aqueles investidos em animais de estimação, sendo que a morte ali já estava presente bem antes do terremoto. A humanidade, sua organização, sua economia principalmente, cria um terremoto proporcional ao do Haiti todos os dias. O terremoto provocado pela natureza não se compara ao terremoto provocado pelo ser humano.
*Pós-Graduando em Metodologia Pastoral pelo IMT.