Nelmo Roque Ten Kathen
As pessoas em geral, também os fiéis das romarias, tem certa dificuldade em localizar historicamente os fatos em torno do martírio dos santos: Roque Afonso e João. Da mesma forma não conseguem fazer uma ligação destes com a história que se deu nos espaços das atuais ruínas dos Sete Povos. O presente texto quer jogar uma luz sobre os acontecimentos e mostrar que se trata de uma única história, mas que se deu em dois momentos: primeiro os mártires e mais de 50 anos após, o início da construção do que atualmente são ruínas.
1. América e Europa: antecedentes daqui e de lá.
Fomos levados a pensar, conforme os manuais de história, que as coisas acontecem a partir da Europa. Parece não ser bem assim. Hoje sabemos que o nosso chão tem uma história milenar. As pesquisas das últimas décadas comprovaram que aqui há sinais de vida de milhares de anos. Temos vestígios de presença humana de 11 mil anos. E há dois mil anos os guarani, deslocando-se da Amazônia, chegaram ao rio Uruguai e entraram no atual território gaúcho. Em 1500, com a chegada dos primeiros europeus, os guarani ocupavam grande parte do território do Estado, junto com os charrua e minuano.
Já a Europa vivia a passagem do feudalismo para o mercantilismo. Após quase mil anos presa a seus limites, as navegações propiciaram a abertura de novas fronteiras comerciais e de conquistas geográficas significativas. Dois países tomaram a dianteira: Portugal e Espanha. Os reis católicos de ambos os tronos assumiram a missão de conquistar riquezas (ouro e prata) e ampliar os quadros da Igreja, pelo sistema do padroado (o Papa lhes entregara a missão de conquistar novos fiéis). Na época a Igreja católica estava perdendo muitos fiéis por causa da reforma Luterana. Com os descobrimentos de novas terras e pessoas, novos fiéis se tornaram possíveis.
Aqui, o encontro de duas culturas tão diferentes foi trágico para os nossos povos indígenas. A estrutura social, política, econômica e religiosa do indígena foi quebrada pela superioridade bélica dos europeus. Houve um processo de conquista e submetimento dos nossos povos ao sistema europeu-cristão. Houve, também, um ensaio de resistência e revolta que culminou com a morte de vários missionários.
2. Índios guarani e os espanhóis e portugueses
Os guarani, na época da chegado de Espanhóis e Portugueses, ocupavam, além do atual RS, parte da Argentina e Paraguai, o oeste do Paraná e sul do Mato Grosso do Sul. Eram um povo semi-nômade, de cultura tipicamente indígena. Lidavam com a agricultura, coleta de frutas e eram caçadores. Seu sistema organizativo era tribal, formando grupos de aproximadamente 500 pessoas. Na tribo a organização dava-se em torno do cacique e do pagé. Escolhido do meio de guerreiros valentes, o cacique tinha uma função política. Já o pagé era, por vocação, profeta, sacerdote, agrônomo, médico e professor. Controlava o saber da tribo. Os dois eram importantes, mas o pagé, por lidar com as divindades, os mistérios da vida, tinha um destaque. Quando os missionários chegaram, mantiveram os caciques e “acabaram” com os pagés, substituindo-os.
Colonizadores Espanhóis e Portugueses vieram com a finalidade de conquistar novos territórios para suas respectivas coroas, riquezas, especialmente ouro e prata e, pelo “convênio” do padroado, novas almas para a Igreja Católica.
Os portugueses, após 1500, ocuparam inicialmente a costa brasileira. Depois adentraram o território em busca de riquezas. Para tanto começaram a usar a mão de obra indígena pelo sistema de escravidão. Cedo descobriram que os guarani eram os mais trabalhadores. Os bandeirantes paulistas, aventureiros caçadores de índios, atacaram primeiro as reduções do Paraná e MS e, depois chegaram ao RS. Aqui o estrago foi grande, tanto que culminou com a retirada de índios e missionários, finalizando o primeiro ciclo das reduções.
Os espanhóis vieram descendo desde o Peru, ocuparam a área que lhes garantia o Tratado de Tordesilhas, chegando até o Paraguai. Tal presença mais se concretizou a partir de 1542 com a criação do vice-reinado do Peru. Eles implantaram o sistema espanhol de administração, junto com a encomienda (ou trabalho encomendado). Este concedia ao colono e seus herdeiros o direito de receber o serviço prestado pelo índio, seja em lavoura ou em construção. O índio não recebia remuneração, só assistência material e religiosa. Era o formato espanhol de escravização do índio, anterior às reduções.
3. Os mártires: o primeiro ciclo das reduções
Com a Reforma de Lutero a Igreja Católica perdeu muitos fiéis. A reação veio com o Concílio de Trento (1545-1563). As decisões do mesmo apontavam para uma nova era de evangelização e a conquista de novos fiéis. Aqui entram os jesuítas com o sistema das reduções. Elas foram criadas para “reduzir” índios em pequenas aldeias, povoados, para facilitar o trabalho dos missionários e a organização política e administrativa. Com os índios vagando livremente pelas florestas o trabalho evangelizador e um novo modo de produção seriam impossíveis, no pensar da época.
O grande trabalho começa com a fundação da província jesuítica do Paraguai, em 1607, pelo padre Diego de Torres Bollo. Rapidamente as reduções se espalham pelo Paraguai e pela bacia do Rio da Prata. E com uma novidade: por concessão da coroa espanhola, os índios reduzidos não estavam mais sob o regime da encomienda. O índio passa a trabalhar para a missão e vive no ritmo da vida proposto pelos missionários. Nas reduções não havia presença de colonos espanhóis, somente missionários. Da administração espanhola restou só o Cabildo (como uma sub-prefeitura), cuidando da política administrativa da redução. Ao mesmo tempo que uma proteção contra a exploração dos colonos, era, entretanto, a negação da organização política guarani. Tentava-se levar o índio a abandonar sua vida seminômade para uma vida em comunidade cristã sedentária. É a morte do modo de vida guarani.
Os Jesuítas começaram seu trabalho reducional no Guairá, oeste do Paraná e sul do Mato Grosso do Sul, em 1609. Logo foram criadas 14 reduções que duraram até 1628, quando são dizimadas pelos bandeirantes paulistas. Com a devastação, os jesuítas levaram os índios restantes ao Itatim, a 500 km de Assunção. Começaram igualmente as reduções na Argentina, entre o rio Paraná e Uruguai. Atravessando o Uruguai, edificaram também 18 reduções nas bacias dos rios Ijuí, Ibicuí e Jacuí, a partir de 1620.
É aqui que entra o Pe. Roque Gonzáles, um criollo, filho de espanhol com índio. Converteu sua vida de encomendero para missionário jesuíta. De explorador de índios passou a ser seu defensor, mas sempre fervoroso catequisador, a modo de Trento e da teologia da época. Em pouco tempo tornou-se um dos maiores construtores de reduções, desde o nordeste da Argentina, na região de Misiones, às margens do Uruguai e atravessando-o em 1626, no passo do padre, hoje São Nicolau. Por este viés, na época pertencíamos ao Paraguai, ponto mais avançado da coroa Espanhola.
Todo contato com os índios implicava em riscos e conflitos. Não foi diferente o ambiente aqui entre nós. Quando foram implantadas as primeiras reduções, logo houve resistências e revoltas. O próprio Pe. Roque o diz em uma de suas cartas: “Disseram-me que voltasse imediatamente, porque os índios da terra estavam sublevados e que haviam vindo logo depois de minha partida daquela redução que principiei, a fim de me matarem, e que, não me achando ali, haviam queimado a igreja e a cruz que eu deixara”. Ele se referia a uma das reduções da região do Tape. Seu trabalho, como sabemos, continuou até 1628, quando foi martirizado, junto com o Pe. Afonso de Rodrigues, na redução de Todos os Santos do Caaró, hoje local do Santuário a eles dedicado. Igualmente o Pe. João de Castilhos foi morto pelos mesmos índios na redução de Assunção do Ijuí, hoje município de Roque Gonzales.
Após o martírio dos três, Roque, Afonso e João, as reduções ainda sobreviveram até por volta de 1641, quando a maioria havia sido devastada pelos bandeirantes paulistas, caçadores de escravos. Mesmo com a derrota dos bandeirantes na batalha de M’bororé, em 1641, os índios remanescentes todos foram transferidos para a outra margem do rio Uruguai, atual Argentina.
4. Os Sete Povos: o segundo ciclo das reduções
Após mais de 50 anos, agora já sem o perigo dos bandeirantes, houve a retomada do projeto reducional na banda oriental do Uruguai. Para os jesuítas era a continuidade do trabalho evangelizador e para a coroa espanhola significava a ocupação de um espaço geográfico de demarcação de fronteiras, já que em 1680 os portugueses invadiram o território espanhol, edificando a Colônia do Sacramento, atual Uruguai. Mesmo com limites vindos do sistema reducional, adaptada ao mesmo, a cultura guarani verdadeiramente floresceu, produzindo impressionante acervo artístico, cultural e religioso.
A construção dos Sete Povos iniciou com a redução de São Francisco de Borja, em 1682 e concluiu-se em 1706 com Santo Ângelo.
SÃO BORJA
Com sua localização na banda oriental do rio Uruguai, teve como fundador, em 1682, o padre Francisco Garcia, que reuniu índios do lado da Argentina e deste lado. Em 1694 já contava com 2.888 habitantes. Ao Pe. Garcia sucede o Pe. Tomas Bruno, irlandês de nascimento. Além de evangelizador era mestre em estatuária, arte que ensinou aos indígenas. Com a expulsão dos jesuítas, depois de 1759, a catequese dos índios começou a declinar apesar da presença de dois missionários franciscanos. Depois disto São Borja foi palco de muitos combates, especialmente em 1816, contra os uruguaios, quando Andrezito Artigas sitiou a cidade.
SÃO NICOLAU
A “primeira querência do Rio Grande” foi inicialmente fundada pelo Pe. Roque Gonzáles, em 1626. Três mil índios voltaram a para São Nicolau, em 1687. Após os primeiros trabalhos de reconstrução, um grande furacão assolou a redução destruindo a capela e a casa dos padres, matando 24 pessoas. A chuva de granizo dizimou grande quantidade de gado. Em 1707 a cidade chegou a um grande florescimento e atingiu uma população de 5.389 habitantes.
SÃO LUIZ GONZAGA
Como redução foi fundada no mesmo ano da refundação de São Nicolau, em 1687. O Pe. Miguel Fernandes foi quem esteve primeiro na cidade, sendo também depois cura de São Lourenço. Foi construída uma bela igreja, a respeito da qual o historiador Hemetério Veloso escreveu, em 1855: “Com pouco trabalho, com pouco dispêndio, essa igreja teria sido salva do desmoronamento que, passados dois anos, se realizou”. Mas São Luiz tivera antes, em torno de 1820, situações difíceis, especialmente pelo acelerado despovoamento provocado por um surto de varíola que dizimou muitos índios que chegaram a ser 3.997. Em 1826 Frutuoso Rivera também assolou São Luiz, roubando e destruindo.
SÃO LOURENÇO
Esta redução nasceu em 1690, no lugar de Caaró, local do martírio dos padres Roque Gonzáles e Afonso Rodrigues distante poucos quilômetros ao sul, na ponta do arroio Uruquazinho. Chegou a ter 4.912 habitantes, em 1707. Quem presidiu os trabalhos foi o Pe. Bernardo de la Vega. Conta o historiador Hemetério Veloso que ainda viu, em 1856, o colégio deste povo com suas celas como depósito das imagens do padroeiro e outros santos.
SÃO MIGUEL
Tendo como local as atuais ruínas, foi uma retransmigração de povos indígenas, que deu-se em 1687. De todos foi o mais populoso dos Sete Povos, com cerca de 7.000 habitantes, possuindo o templo mais majestoso e confortáveis habitações, com ruas bem traçadas. A igreja da redução foi construída entre os anos de 1736 e 1745. Quem dirigiu os trabalhos de construção foi o irmão jesuíta João Batista Primolli, natural de Milão, Itália. Oitenta a cem índios trabalharam durante nove anos na sua construção. As pedras da construção foram trazidas das barrancas do rio Santa Bárbara. No governo de Borges de Medeiros foi feito um trabalho de restauração e atualmente o IPHAN zela por seu patrimônio artístico e cultural.
SÃO JOÃO BATISTA
Este povo originou-se de um desmembramento de São Miguel, em setembro de 1697. Foi o Pe. Antônio Sepp, austríaco de nascimento, que encabeçou e dirigiu os trabalhos de sua construção. Como missionário aproveitou seus conhecimentos de música na catequese dos indígenas. Formou um coral com os índios, sendo que eles mesmos chegaram a fabricar seus instrumentos musicais. Também nesta redução funcionou a primeira siderúrgica do país, onde, possivelmente, foram fundidos os sinos de São Miguel. Em 1707 contava com uma população de 3.361 habitantes.
SANTO ÂNGELO
Foi o último dos Sete Povos a ser fundado, em 1706, tendo à sua frente o Pe. Diogo Haze, um belga que veio da redução de Concepcion, com 737 famílias. Prosperou economicamente tornando-se, em pouco tempo, pela industrialização da erva-mate, a mais rica das cidades. Em 1767, época da expulsão dos jesuítas, produzia, por ano, 5.000 arrobas de erva e 4.000 arrobas de algodão, para exportação.
Cinquenta anos durou o florescimento dos Sete Povos. Em 1750, com o Tratado de Madri, entre as coroas espanhola e portuguesa, iniciou sua agonia. Com a troca da Colônia do Sacramento pelas Missões, para nenhum dos dois países interessavam as cidades de guaranis. Os guarani não aceitaram a desocupação e foram massacrados pelos exércitos aliados. Nos combates travados cresceu o “herói Guarani, Missioneiro e Rio Grandense”, Sepé Tiaraju. Para muitos é hoje São Sepé.
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