13 de jul. de 2010

Nas famílias, nem tudo é desvio e pecado

Introdução

Ao introduzir o presente texto, queremos apresentar uma série de perguntas: a família está em crise ou vivemos a crise de um modelo familiar? Será que o cristianismo deve insistir em apenas um modelo familiar? Não é possível viver e testemunhar os valores cristãos em diversas formas de entidades familiares? As mudanças que estamos vivendo são apenas negativas ou consegue-se perceber nelas

elementos positivos? A mudança familiar não representa um dos grandes Sinais dos

Tempos a ser observado e compreendido nos dias atuais e a partir dessa mudança compreender o anseio social de pluralidade de formas familiares? No que segue, primeiro são apresentados alguns elementos para a interpretação bíblica. A primeira parte de nossa reflexão insiste sobre o lugar dos Sinais dos Tempos e da ComunidadeEclesial na interpretação da Bíblia. Colocadas estas questões introdutórias, o texto procura um discernimento teológico sobre os Sinais dos Tempos: “Novas Famílias”. Trata-se de um olhar para a Sagrada Escritura, considerando situações ligadas à questão do divórcio e da família de Nazaré.

1. A importância dos Sinais dos Tempos

O Concílio Vaticano II (1962-1965) imprimiu mudanças e transformações muito grandes na Igreja. Uma destas mudanças diz respeito aosSinais dos Tempos. O Vaticano II pediu para que a Igreja ficasse atenta aos Sinais dos Tempos.

O que são Sinais dos Tempos? Trata-se de uma exigência à Igreja e à Teologia de manter umdiálogo permanente com a sociedade, entender situações de vida de pessoas, dialogar com distintas culturas e compreender que a vida humana,

diferente da natureza, é histórica, cultural e contextual, por isso, sempre inventada. Os Sinais dos Tempos exigem uma atitude constante de releitura, em contexto, da Bíblia, das tradições, dos dogmas e das práticas eclesiais. A Bíblia é a fonte originária que exige novas interpretações a partir dos novos Sinais dos Tempos. As fontes mais originárias (as Escrituras) necessitam de novas interpretações, em vista dos novos contextos e desafios pastorais. Neste sentido, novas famílias é um

dos Sinais dos Tempos que necessi- ta ser visualizado e ouvido. Novas famílias não pode ser ignorado no sentido de fazer de conta que não existam. Novas famílias é um dos Sinais dos Tempos de uma mudança de época e nãoapenas de uma mudança dentro de uma época.

2. A Comunidade Eclesial como intérprete

O intérprete bíblico não é simplesmente o intelectual teólogo, mas a comunidade de fé, mesmo que, muitas vezes, seja refém de preconceitos. Para além de toda definição especialista e regrada de leitura bíblica, precisa ser garantido o espaço das comunidades de fé, numa postura de Espírito criador. A comunidade eclesial tem todo o direito de também interpretar o Evangelho ao seu tempo e momento

histórico. A comunidade de fé tem uma “competência bíblica” quase espontânea, sustentada pelo “espírito de Cristo” em meio às novas situações históricas. A Teologia se articula a partir da experiência de fé dos cristãos, engajados em comunidades eclesiais inseridas no seio da sociedade. Consequentemente, não há autêntica Teologia fora do tecido eclesial e social. Em última instância, a Teologia, embora deva guardar toda sua objetividade e criticidade, ela está a serviço da evangelização, da missão da Igreja, da vivência da fé na vida pessoal e social,

da encarnação do Evangelho nas culturas, no coração das pessoas e nas estruturas. Nem sempre, no entanto, este serviço da Teologia à comunidade de fé tem sido respeitado. A reflexão que segue quer justamente ir ao encontro dos anseios e angústias da comunidade eclesial sobre as novas famílias, considerando-as como grandes Sinais dos Tempos. Uma reflexão, neste sentido, exige uma desconstrução de compreensões internalizadas historicamente como sendo a interpretação definitiva de diversas passagens bíblicas, excluindo outros elementos cheios de esperança e possibilidades. É claro que uma nova interpretação de textos bíblicos vem carregada de novidade e surpresa, possibilitada pelos Sinais dos Tempos.

3. Um olhar sobre as famílias à luz da Bíblia

3.1 Sobre o divórcio: Mt 19,3-9

Analise o quadro sobre casamentos registrados, separações judiciais e divórcios

concedidos em algumas das cidades de nossa região no ano de 2008. Estes são dados do IBGE, disponíveis em: http://www.ibge.gov.br/cidadesat/topwindow.htm?1 Diante dos crescentes números de divórcios e separações judiciais, como nos apontam dados do IBGE 2008, o texto bíblico que apresenta Jesus condenando o divórcio necessita ser analisado de modo contextual. Em outras palavras, no atual contexto do divórcio é importante perguntar o significado contextual da questão

do divórcio no tempo de Jesus. Cabe a pergunta se Jesus estava defendendo a perenidade do vínculo matrimonial ou se defendia, de forma mais humana, as mulheres sob a arbitrariedade de um privilégio injustamente masculino, deixando a mulher à mercê de muitos riscos. É necessário muito cuidado para afirmar com segurança o que Jesus gostaria para nós hoje. Vejamos o texto bíblico: Alguns fariseus aproximaram-se de Jesus e, para experimentá-lo, perguntaram: “É

permitido ao homem despedir sua mulher por qualquer motivo?” Ele respondeu:

“Nunca lestes que o Criador, desde o princípio, os fez homem e mulher e disse: ‘Por

isso, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e os dois formarão

uma só carne’? De modo que eles já não são dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus uniu, o homem não separe”. Perguntaram: “Como então Moisés mandou dar

atestado de divórcio e despedir a mulher?” Jesus respondeu: “Moisés permitiu despedir a mulher, por causa da dureza do vosso coração. Mas não foi assim desde o princípio. Ora, eu vos digo: quem despede sua mulher – fora o caso de união ilícita – e se casa com outra, comete adultério” (Mt 19,3-9).É bem conhecida a situação

de inferioridade das mulheres na sociedade do tempo de Jesus. Juntamente com as crianças, eram consideradas como propriedade dos maridos ou dos pais. Isto fica em evidência nas perguntas dos fariseus: “é permitido ao homem despedir sua mulher por qualquer motivo?” e “como então Moisés mandou dar atestado de

divórcio e despedir a mulher?”. A resposta de Jesus precisa ser compreendida

neste contexto, considerando a situação das mulheres e a desmedida pergunta dos fariseus. É importante também observar que os fariseus buscam argumentação no Antigo Testamento, onde diz: “se um homem toma uma mulher e se casa com ela, e esta depois não lhe agrada porque descobriu nela algo inconveniente, ele lhe escreverá um atestado de divórcio e assim despedirá a mulher” (Dt 24,1). A Lei do divórcio, como era interpretada por alguns rabinos, tornava as mulheres vítimas dos homens. Os fariseus perguntaram a Jesus que motivos um homem poderia ter para repudiar sua mulher porque os homens tinham o direito absoluto sobre as mulheres.

Jesus, que sempre se posicionou em defesa dos injustiçados, defende a mulher por meio da sacralidade do matrimônio. Sua resposta representa acima de tudo uma tomada de posição em defesa das mulheres. Jesus também vai buscar argumentos no Antigo Testamento, mas para defender a igualdade de direitos entre homens e mulheres. A igualdade entre todas as pessoas provém da criação, quando Deus criou o ser humano, homem e mulher (Gn 1,27; 5,1-2). O projeto de Deus é que o homem e a mulher, ao se casarem, formem uma só carne (Gn 2,24). Quando isto ocorre, esta união é indissolúvel por ser obra de Deus, não podendo ser desfeita por nenhum motivo. Nesta perspectiva, a indissolubilidade do matrimônio acontece quando Deus os une, co-existindo amor e afetividade, ou seja, quando homem e mulher formam uma só carne.

3.2 A justiça de José e a vontade divina: Mt 1,18-25

Queremos olhar agora para a família de Nazaré. Não podemos ceder à piedosa tentação de imaginar uma família idealizada e espiritualizada, alheia à realidade histórica e cultural. Do ponto de vista sociológico, a família de Nazaré é uma família judia absolutamente normal: viveu os valores humanos e religiosos de uma família crente; frequentou a sinagoga; meditando a palavra dos profetas; peregrinou

ao templo. Mas o mais interessante de tudo se encontra já na constituição dessa família, isto é, quando Maria encontra-se grávida por obra do Espírito Santo. Ainda não c asada, apenas prometida em casamento, Maria se encontra grávida. Vejamos o texto: Ora, a origem de Jesus Cristo foi assim: Maria, sua mãe, estava prometida em casamento a José e, antes de passarem a conviver, ela encontrou-se grávida pela ação do Espírito Santo. José, seu esposo, sendo justo e não querendo denunciá-la publicamente, pensou em despedi-la secretamente. Mas, no que lhe veio esse

pensamento, apareceu-lhe em sonho um anjo do Senhor, que lhe disse: “José, Filho de Davi, não tenhas receio de receber Maria, tua esposa; o que nela foi gerado vem do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho, e tu lhe porás o nome de Jesus, pois ele vai salvar o seu povo dos seus pecados”. Tudo isso aconteceu para se cumprir

o que o Senhor tinha dito pelo profeta: “Eis que a virgem ficará grávida e dará à luz um filho. Ele será chamado pelo nome de Emanuel, que significa: Deus conosco”. Quando acordou, José fez conforme o anjo do Senhor tinha mando e acolheu sua esposa. E não teve relações com ela até o dia em que deu à luz o filho, ao qual

ele pôs o nome de Jesus (Mt 1,18-25).O que há de “anormal” na família de Nazaré? A anormalidade da família de Nazaré é a gravidez de Maria que acontece, por vontade divina, antes de ela estar casada com José. O próprio Deus burlou as leis de pureza para que o Messias pudesse nascer no meio de nós! Se José tivesse agido conforme as exigências das leis da época, deveria ter denunciado Maria e ela seria jogada no abandono e na humilhação. Ela teria sido explorada em todos os sentidos pelo resto da vida (Mt 23,14). Mas José, por ser justo, não obedeceu às exigências das leis de pureza (Mt 1,19). A justiça de José era maior e o levou a defender a vida tanto de Maria como de Jesus. José, com a ajuda do anjo, vai burlar a justiça machista da época, para instaurar um novo modelo de justiça. José, portanto, ouvindo a mensagem do anjo, consegue descobrir a ação de Deus onde, conforme a opinião da época, só parecia haver desvio e pecado. Anjo é o mesmo que mensageiro. Ele ajuda a perceber a ação de Deus na nossa vida. Hoje, há muitos anjos e anjas que nos orientam na vida. Às vezes, eles atuam nos sonhos, outras vezes nas reuniões, nas conversas, nos fatos, etc. Mateus manda, assim, um aviso para as comunidades: estão vendo no que daria a observância rigorosa que certos fariseus exigem de vocês? Daria na morte do Messias! Mais tarde, Jesus irá dizer: “se a justiça de vocês não superar a dos doutores da Lei e dos fariseus, vocês não entrarão no Reino do Céu” (Mt 5,20). Pensando a partir do contexto da época de Jesus, vemos que é dominado por um intenso patriarcalismo. Tendo presente o que dissemos até agora, queremos seriamente nos perguntar se não se é mais profundamente fiel ao Evangelho na medida em que pensamos a gravidez de Maria “fora do casamento” a partir da grandiosa percepção, por parte de José, da presença de Deus onde somente parece comportar desvio e pecado? Não seria, desde a concepção, Jesus, o nazareno, sinal de contradição e fruto da mais completa

marginalização da mulher, mas acolhido pela justiça de José? Acho que esta é uma maneira mais sadia e serena de se pensar e, por isso, mais significativa num contexto de exploração da mulher por parte do homem. José foi capaz de acolher uma mulher que, pela Lei da época, deveria ser denunciada e, provavelmente, apedrejada. Aliás,

esta foi a primeira intenção de Judá quando soube que Tamar, sua nora, estava grávida: “tragam- na para fora e seja queimada viva” (Gn 38,1-30). Judá somente mudou de ideia quando soube que ele próprio era o pai da criança que sua nora estava esperando. José, por isso mesmo, é símbolo primeiro e mais radical do homem justo, que não se outorga o direito de discriminar, mas que percebe

a presença de Deus em situações complicadas, que a primeira vista parecem comportar somente pecado e desvio humano. Esta ação de Deus “por linhas tortas” pode ser percebida em toda a Sagrada Escritura. Basta que abramos os olhos para acolher, de fato, o mistério de Deus na humanidade, muitas vezes discriminada

e marginalizada.

Conclusão

Ao ler este texto, você leitor(a) deve ter sentido sentido em alguns momentos e por várias razões certo desconforto. Este sentimento, sem dúvida, é totalmente normal, uma vez que foram abordados dois textos bíblicos por um viés que comumente não é trabalhado. Quando abordados dessa maneira, acabamos visualizando novas perspectivas e possibilidades de compreensão destes textos. Também a nossa realidade social e religiosa passa a ser compreendida de forma distinta. Se antes mantínhamos por meio destes dois textos bíblicos muitos preconceitos em relação a variadas situações familiares e relacionais, agora, à luz dos mesmos textos, conseguimos ver com outros olhos estas mesmas realidades. Procuramos, primeiro, apresentar dois pressupostos que acompanharam o todo da reflexão bíblica:

1. O lugar dos Sinais dos Tempos na interpretação bíblica. As fontes mais originárias (as Escrituras) necessitam de novas interpretações, em vista dos novos contextos e desafios pastorais, aqui chamados de Sinais dos Tempos. 2. A comunidade eclesial, sustentada pelo “espírito de Cristo” em meio às novas situações históricas, tem todo o direito de interpretar o Evangelho ao seu tempo e momento histórico. A comunidade de fé tem uma “competência bíblica” quase espontânea, sustentada pelo “espírito de Cristo” em meio às novas situações

históricas. Depois, ao olharmos para dois textos bíblicos relativamente conhecidos, procuramos: 1. Apresentar um modo alternativo de compreender a afirmação de Jesus “o que Deus uniu, o homem não separe”, enquanto resposta à pergunta desmedida dos fariseus: “é permitido ao homem despedir sua mulher por qualquer motivo?”. 2. Mostrar que já na concepção do menino Jesus a Família de Nazaré se apresentou com dificuldades, pois Maria se encontrava grávida pela força do Espírito Santo, sem que estivesse casada com o seu noivo José. Que estes textos nos ajudem no discernimento pastoral, social e relacional!

Pe. Fábio Junges

Nenhum comentário:

Postar um comentário