Ócio criativo como nova forma de trabalhar na era pós-industrial
Sociólogo italiano, Domenico de Masi, propõe uma nova forma e organização do trabalho, com sentido
mais humano, entendido como ócio criativo. A proposta vai na contramão da forma de trabalho do
capitalismo atual, onde temos que "almoçar os outros antes que eles nos jantem".
As ideias que apresentamos nesse texto são de uma entrevista de Domenico de Masi a Mario Persona (consultor, escritor e palestrante). A questão de fundo é pensar um trabalho onde as pessoas pudessem fazer apenas aquilo que gostam. Como seria possível viver fazendo apenas o que se gosta? Mas, nesse fazer está incluído o trabalho, entendido não como um fardo e sim como algo que se mistura com lazer, estudo, onde não é possível ter uma divisão e distinção nítida de um e de outro.
De Masi defende "a ideia que é chegado o momento de cultivarmos o ócio criativo para uma nova era. Utopia? Não. Cada vez mais pessoas e empresas aderem aos seus conceitos e passam a ter vidas mais felizes e produtivas". Essa compreensão de trabalho já tem aceitação de muitas pessoas e empresas, sobretudo, as que estão ligadas as formas de tele-trabalho, usando das novas tecnologias. "Os ganhos tangíveis consistem no fato de que se consegue produzir mais bens e serviços com menor esforço físico e menos stress intelectual. Os ganhos intangíveis estão na possibilidade de se usufruir, em tempo real, de uma rede de interlocutores, de amigos, de colaboradores".
Dar internet para todos e informatizar todo trabalho?
Para De Masi a informatização está nas mãos de alguns grupos que faturam verdadeiras fortunas. E, mesmo que os países ricos pensam que é preciso dar internet para todos os povos, "de espontânea vontade os ricos nunca darão nada aos pobres. É necessário que os pobres saibam defender os seus direitos e obter as próprias vantagens. Em todos estes anos nos quais o G7 se reuniu, na América o número de presos dobrou e em todo o mundo aumentou a distância entre ricos e pobres" afirma De Masi. As vantagens do tele-trabalho são inegáveis: economia de tempo, dinheiro e stress. No entanto, sozinho ele não assegura uma criatividade que permite ter mais tempo, mais felicidade, mais relações pessoais que nos fazem felizes. Para De Masi, "uma relação de trabalho ideal permite aos trabalhadores não apenas ganhar dinheiro, mas também de satisfazer as necessidades de introspecção, amizade, amor, diversão, beleza e convivência".
O que muda no sistema de sociedade com uma forma de trabalho que seria prazeroso, um ócio criativo?
Vai mudar a economia que está baseada na forma como trabalhamos atualmente. Para que essa mudança aconteça é preciso uma relação de mudanças estruturais
e culturais em conjunto. "Eu espero que a difusão de minhas ideias consiga criar um grupo crítico de pessoas dispostas a mudar realmente o seu modelo de vida e lutar para conquistar a felicidade" afirma De Masi. Já há grupos e empresas que estão se organizando em torno de uma nova forma de trabalho, inclusive no Brasil. "No Brasil é suficiente ver o caso de Ricardo Semler em São Paulo, o caso de Lerner em Curitiba, o caso de Oscar Niemeyer no Rio". Para De Masi, o "ócio criativo é uma arte que se aprende e se aperfeiçoa com o tempo e com o exercício. Existe uma alienação por excessode trabalho pós-industrial e de ócio criativo, assim como existia uma alienação por excesso de exploração pelo trabalho industrial. É necessário aprender que o trabalho não é tudo na vida e que existem outros grandes valores: o estudo para produzir saber; a diversão para produzir alegria;
o sexo para produzir prazer; a família para produzir solidariedade, etc.".
Descontentamento com a forma de vida
Sabemos que todos estamos, de um modo ou de outro, descontentes com o modo de vida que levamos dentro da organização de trabalho e da sociedade em geral.
Para De Masi, "a maioria das pessoas que concorda com as minhas ideias sente uma real necessidade de modificar o modelo de vida imposto ao ocidente americanizado sob o impulso do pensamento empresarial: competitividade cruel, stress existencial, prevalência da esfera racional sobre a esfera emocional". O uso da tecnologia para efetivar uma mudança no trabalho vai acontecer dependendo do tipo de riqueza que se quer buscar. "Ricos economicamente? Hoje já é usada com esta finalidade. Ricos humanamente? Quando substituirmos uma sociedade competitiva por uma sociedade
solidária". Essa mudança, que requer uma dimensão de organização da sociedade em termos mais humanos e solidários, coloca a seguinte questão: "É possível humanizar o capitalismo?" "O capitalismo é baseado no egoísmo e na competitividade: isto é, sobre premissas brutais, não humanas. Portanto é impossível humanizá-lo".
Trabalho do prazer ou prazer do trabalho?
Logo surge a questão: alguém iria trabalhar realmente? Essa pergunta precisa mudar o sentido porque a própria ideia de trabalho já não é a mesma. O trabalho não
pode ser visto como desprazer, como uma corrida louca por bens que nos faz escravos do dinheiro. De Masi procura pensar em termos de prazer
em trabalhar. "Eu não gosto do ócio puro: depois de um pouco de tempo, me aborrece. Eu gosto do ócio "criativo": isto é, a síntese do trabalho, do estudo e da diversão. O ócio criativo nunca me aborrece".