Comentário sobre o lema da Campanha da Fraternidade 2010
Sagrada Escritura apresenta, nitidamente, dois estatutos de vida diferentes, um para a felicidade eterna, depois da morte, o outro para uma vida solidariamente feliz, já aqui no mundo.No episódio do jovem rico, Mt 19, 16-26 (sigo a versão de Juan Mateos, em El Sermón del Monte), que se aproxima de Jesus, angustiado, e lhe pergunta: "Mestre, que devo fazer de bom para conseguir a vida eterna?" aparecem, bem distintos, os dois estatutos. Jesus responde: "Se queres entrar na vida, guarda os mandamentos". Trata-se do código da Primeira Aliança. Ele indica o caminho da salvação eterna. À pergunta sobre quais mandamentos, Jesus explicita: "Não matarás, não cometerás adultério, não roubarás, não darás falso testemunho, sustenta teu pai e tua mãe, ama teu próximo
como a ti mesmo". Em outras palavras, Jesus quer dizer que para salvar-se basta ser honrado. Quem se comporta respeitosamente, em qualquer religião ou sem religião, este tem a vida futura. Ao dizer que já cumpre tudo isso, Jesus lhe rebate: "Por que então me perguntas isso, se já o sabes?" O estatuto dos dez mandamentos é o mínimo, e ele basta, para quem deseja salvar-se. Na sequência, Jesus surpreende com sua novidade. Aponta com clareza e decisão: "Se queres ser homem, vai vender o que tens e dá-lo aos pobres, que Deus será tua riqueza; e vem, segue a mim". Trata-se de um projeto de vida absolutamente novo, que antecipa para este mundo os bens futuros, prometidos no Primeiro Testamento. Jesus vem exatamente para isso: instaurar, já aqui na terra, um modo de ser, de viver e conviver que elimina as injustiças, as desigualdades humanas, os ódios, as guerras, a escravidão, a violência... Vem para instaurar uma nova umanidade, uma nova ordem social, mais justa e solidária, "o reino de Deus", um "novo céu e uma nova terra". Jesus convida, para esse fim, um grupo de homens e mulheres. Os que aceitam seu chamamento passam a ser seus amigos e discípulos. Durante aproximadamente três anos, "ensina-os" a viver, como ele, o novo paradigma de humanidade. A constituição e o estatuto de vida desse grupo de discípulos estão registrados no capítulo quinto de S. Mateus, o programático discurso da montanha. Nas bem-aventuranças, prólogo desse discurso, Jesus retrata a própria experiência. No âmago de seu ser no mundo, precário, vulnerável, contingente e instável, ele se sente amparado, em místico abraço, pelo amado Pai e enviado ao mundo para que "todos tenham vida em abundância". O lema da CF 2010 "Vocês não podem servir a Deus e ao dinheiro" é parte da explicação, dada por Jesus mesmo, à primeira bem-aventurança: "Felizes os pobres por opção" . O paralelo desta primeira bem-aventurança com o primeiro mandamento "Eu sou o Senhor teu Deus... Não terás outros deuses além de mim" é claro. O falso deus, identificado por Jesus, em sua experiência no mundo, é o dinheiro, tido por muitos como valor absoluto, acima de todos os outros valores. Nele estão embutidos os falsos valores, do prestígio e do poder, os que criam injustiças e infelicidade no mundo. Para Jesus, os "pobres de espírito" (espírito, entre os hebreus, designa a interioridade humana ativa, que escolhe e toma decisões, ao contrário da interioridade estática, compreendida pelo termo coração), não são os pobres sociológicos, muito menos os miseráveis, mas os pobres por opção, isto é, os que livremente decidem não adorar o dinheiro e seus sequazes, mas escolhem dar um passo a mais, o de aderir a Jesus, o pobre de Nazaré, para formar com ele uma nova sociedade. Feliz quem compreende, como Jesus, que é por essa opção de pobreza, e unicamente por ela, que se pode eliminar a injustiça do mundo. Os que nos sentamos com Jesus na montanha, em que ele se faz nosso companheiro, partilha conosco seu Espírito e Vida, formamos o povo da Nova Aliança, o Novo Israel, enviado ao mundo todo para sermos sacramento do seu Reino, sinais e instrumentos do seu Amor Redentor.
Dom José Clemente Weber
Bispo Diocesano
domclemente@san.psi.br
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